Pedro
O sofrimento existe. E sempre existiu. Mesmo que você tentasse.
E se você nunca houvesse dito sim?
Aí jamais saberia o que são os olhos de Pedro.
E se tivesse dito não naquele momento que vacilou? Eu bem vi, a mão nervosa na saia rendada.
Eu não sei se é o que eu quero.
Como se eu pudesse fazer diferente sobre todas as coisas. Você sabe que não. Vamos conversar?
Com calma. Sentados na mesa?
Sem essa sua atitude de sempre, essa especificamente que nos foi afastando ano após ano, e não a falta de dinheiro. E não a sua mãe, que sempre quis nos afastar.
Sim, sim, sempre quis. É bobagem você defendê-la agora. Nada disso importa mais.
É impressionante como tudo importou entre nós dois, até aquele momento em que nada mais fazia sentido.
Você se lembra quando queríamos que o Pedro se chamasse Frederico?
Era um nome mais inteiro, você dizia.
Mas Frederico não, certamente Pedro, que veio como as coisas que a gente não decide.
É certo que eu ainda consigo ver você naquela tarde, encostada na pia. A água escorria, você estava nervosa.
E quando você não estava nervosa? Pensando bem, me recordo de poucos momentos.
A gente vai dar conta. Quando você disse isso, nem olhou para mim. Acho que me confundia com mais uma daquelas mulheres do departamento.
Mas eu quis acreditar. Não porque acreditasse de fato. Mas tudo aquilo era uma chuva. E eu precisava de um abrigo.
Aliás, Pedro nasceu num dia quente demais. Chorou pouco. Pedro sempre foi contido.
Desconfio que desde aquele primeiro momento, ele sabia onde iríamos falhar.
Talvez tenha sido precisamente ali que tudo começou.
Ou muito antes. Quando você não se sentia segura. Quando passava e repassa os dedos pela saia rendada, sem dizer um sim de peito cheio.
Não, eu não estou ouvindo você. Não, eu não quero me sentar na mesa.
Falando francamente, adiamos essa conversa difícil vezes demais. Ela se tornou impossível.
Estou. Sempre estive, embora você diga que não.
É que entender o que eu digo é outra coisa. Uma que a gente foi deixando pra depois.
Claramente.
Você cruza os braços, e eu reconheço o gesto. É o mesmo de sempre. Você é todo previsível.
Fica um espaço entre nós. Não é grande, mas é fundo.
E você queria isso? É o que você quer mesmo?
Você demora. Olha para a mesa, para as próprias mãos, para qualquer coisa que não seja eu.
Pedro está no quarto. Ou talvez não esteja. De qualquer modo, fale baixo, é melhor.
Às vezes acho que ele ainda corre pela casa, às vezes acho que já se foi há muito tempo.
Ele tem seus olhos.
Não. Eu quero rir. Mas não rio. Ele tem os dele.
A gente tentou.
Sim.
Ninguém pode dizer que a gente não tentou.
Não pode.
Isso precisa bastar.
A casa quieta. Pedro quieto. Eu quieta. Você quieto.
Pela primeira vez, eu entendo.
Tudo raso e tudo fundo.
Tudo quieto, enfim.

